Olá, antes de mais nada, dou meus parabéns aos autores dessa página, as respostas são muito claras e didáticas e me deixam cada vez mais interessada por evolução. Minha pergunta é: já que, antes da globalização, os nórdicos, os negros e asiáticos estavam geograficamente separados e desenvolveram várias diferenças , isso não nos permitiria o uso da ideia de subespécies humanas? Ex: os nórdicos seriam uma subespécie diferente da dos aborígenes australianos.
Anonymous

Não. Para começar, os seres humanos modernos já são parte de uma subespécie de Homo sapiens, Homo sapiens sapiens. As outras subespécies já estariam extintas, como Homo sapiens idaltu e, talvez, Homo sapiens rhodesiensis, como defendem alguns paleoantropólogos, mas há bastante discussão sobre esta questão. Além do mais, o próprio conceito de subespécie é problemático. Subespécies são tradicionalmente definidas em termos de descontinuidades na distribuição geográfica de características fenotípicas de uma dada espécie, o que pode ser bastante subjetivo de atribuir (principalmente em se tratando de restos fósseis). Estas complicações fazem com que o próprio status das subespécies, como uma categoria taxonômica legítima, seja bastante controverso, especialmente por que alguns estudos moleculares, realizados para identificar subespécies tradicionais como sendo filogeneticamente distintas, acabaram por fracassar mesmo em especies que tradicionalmente eram consideradas subdivididas em subespécies. No caso dos seres humanos esta situação ainda é pior pois mesmo as características fenotípicas humanas são distribuídas de maneira muito mais gradual e quando aplicam-se os mesmos critérios técnicos empregados em espécies de animais e plantas que os cientistas consideram serem divididas em subespécies, como mostra os dois artigos de Templeton citados nas referências, não conseguimos subdividir as populações modernas de seres humanos em subespécies ou em raças geográficas.

Abordei esta questão das supostas ‘raças humanas’ (biológicas) em uma resposta recente que você pode ler aqui. Sobre este tópico aconselho os artigos de Jonathan Marks e os sites indicados nesta resposta, além claro dos já mencionados artigos de Alan R. Templeton que explica a inadequação da ideia de raças geográficas ou subespécies quando aplicadas aos seres humanos modernos.

Então, para resumir: A principal questão que torna tais conceitos inapropriados para nossa espécie é que a variabilidade genética humana simplesmente não se distribui de maneira semelhante a forma com ela se distribui em outras espécies que consideramos serem subdivididas em subespécies ou raças geográficas. Este é o ponto principal. As diferenças fenotípicas que observamos em nossa espécie são, na realidade, bem superficiais e têm mudado dinamicamente ao longo da história de nossa espécie. Talvez mais importante ainda seja o fato de nossas diferenças genéticas serem também muito mais gradativas, distribuídas em gradientes ou clinas, sendo as maiores diferenças na nossa espécie encontradas entre indivíduos de uma mesma população e não entre grupos de indivíduos de populações geográficas distintas.

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Literatura recomendada:

  • Phillimore AB, Owens IP. (2006) Are subspecies useful in evolutionary and conservation biology? Proc Biol Sci. 7;273(1590):1049-53. PubMed PMID:16600880; PubMed Central PMCID: PMC1560251. [Link]

  • Templeton, A. R. (1998), Human Races: A Genetic and Evolutionary Perspective. American Anthropologist, 100: 632–650. doi: 10.1525/aa.1998.100.3.632 [PDF]

  • Templeton, A. R. (2013). Biological races in humans. Studies in History and Philosophy of Science Part C: Studies in History and Philosophy of Biological and Biomedical Sciences 44:262-271. [PDF]

Grande abraço,

Rodrigo

What is the Evidence for Evolution?

Se viemos do macaco, para onde estamos indo???? Quem veio primeiro o ovo ou a galinha?????
Anonymous

Estas são clássicas. :)

O primeiro ponto a ser esclarecido é que nós não somos descendentes de qualquer espécie contemporânea de macacos. É neste sentido que os biólogos insistem que não ‘viemos dos macacos’, mas, na verdade,  compoartilhamos com estes animais (os macacos modernos) ancestrais comuns, alguns deles tão recentes que devem ter vivido há 5 ou 6 milhões de anos atraś, que é a data estimada em que nossos ancestrais divergiram dos ancestrais dos bonobos e chimpanzés. Estes animais, que coabitam este mundo conosco, são nossos ‘primos’ e portanto são tão evoluídos como nós seres humanos e não podem ser nossos ancestrais. Porém, se estes ancestrais comuns que compartilhamos como os demais macacos, poderiam, eles mesmos, serem descritos como ‘macacos’, então, nós seríamos descendentes de macacos (extintos) e, neste outro sentido, teríamos sim ‘vindo dos macacos’. Isso quer dizer que somos também descendentes de ‘macacos pré-históricos’, que são os ancestrais comuns que compartilhamos com os demais macacos. Porém, como é explicado no vídeo feito pelo Davi Ayrolla e no post do evolucionismo sobre o mesmo tema (“Afinal, viemos ou não viemos dos macacos? Três respostas possíveis.”), pelo fato de o que chamamos de macacos serem animais de um subgrupo dos primatas (antropoidea ou simiiforme) do qual nós, seres humanos e nossos ancestrais mais diretos, também fazemos parte, de uma perspectiva científica muito clara, por consequência, os seres humanos são também um tipo de macaco.

Isso nos leva a sua outra pergunta. Embora possamos especular sobre o assunto e tentar fazer previsões para um futuro próximo, prever tendências evolutivas, especialmente aquelas de longo prazo, é algo extremamente complicado. A evolução depende de uma série de fatores aleatórios e contingentes associados a oferta de mutações e ao contexto ecológico e demográfico de nossa espécie que determina como estas mutações se comportarão e se disseminarão (ou não) ao longo das gerações, além disso, a forte dependência que temos da cultura torna as previsões ainda mais complicadas. Portanto, qualquer cenário será bem especulativo.



Por fim, claramente, o ‘ovo veio primeiro que a galinha’, pelo menos de uma perspectiva evolutiva, já que o ‘ovo cleidóico’, aquele com casca dura e porosa (e os ovos de maneira geral, que são ainda mais antigos e disseminados) evoluíram muito antes que as galinhas (e as aves modernas) tivessem evoluído. :)



Grande abraço,



Rodrigo

Olá, gostaria de saber se há algum problema ou fenômeno biológico que a teoria da evolução ainda não conseguiu explicar.
Anonymous

Existem vários fenômenos que ainda desafiam a teoria evolutiva moderna e problemas que dividem os biólogos evolutivos, mas isso é exatamente o esperado em qualquer campo científico em pelo desenvolvimento e  portanto não é algo que deve causar espanto. Afinal, é basicamente isso o que acontece com as teorias científicas. Elas não esgotam (e não explicam em todos os detalhes) todos os fenômenos a que elas dizem respeito, mas ainda assim são fundamentais na orientação da investigação destas problemas e fenômenos.

Creio que é possível encontrar questões em aberto e discussões importantes em qualquer área da biologia evolutiva moderna, desde a origem do sexo, passando pela origem da multicelularidade e da cooperação, além de questões referentes a natureza das espécies, ou mesmo sobre como se deu a evolução humana, principalmente se concentrarmo-nos nos detalhes sobre a estrutura de parentesco e os mecanismos e processos evolutivos responsáveis pela evolução de características como nossa capacidade de pensamento simbólico e linguagem.


Escrevi duas respostas (aqui e aqui) em que entro um pouco mais em alguns dos detalhes, tanto das questões mais debatidas na biologia evolutiva, como também sobre as mudanças na própria teoria evolutiva desde que Darwin e Wallace propuseram seu modelo de evolução variacional. Sim, as teorias evolutivas mudam com o tempo, conforme novos e melhores dados, métodos mais poderosos e insights teóricos mais profundos vão surgindo.


Porém, cabe sempre um alerta. Todos estes debates, discussões e questões em aberto são referentes aos padrões e mecanismos evolutivos, não havendo discussões científicas sobre a realidade do fenômeno básico da evolução dos seres vivos, ou seja, a ancestralidade comum por descendência com modificação, que é um consenso muito bem estabelecido dentro da comunidade científica. Nenhum destes problemas e discussões portanto põem em dúvida a realidade da evolução biológica. Elas dizem respeito ao COMO e não a FATO em si.

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Literatura Recomendada:



Grande abraço,



Rodrigo

Olá, Rodrigo. Tive aulas sobre questões de gênero e a forma como o professor abordou a temática me deixou extremamente incomodada, já q ele negou completamente o papel da biologia na definição de gênero, tendo até mostrado o "pensamento biologizante" como algo a ser combatido. Gostaria de saber se realmente a biologia não tem influência na questão do gênero ou se trata-se de um exagero dessas pessoas (ele citou particularmente Judith Butler).
Anonymous

Olá. Dessa vez quem escreve é o Eli, vou passar na frente do Rodrigo para responder esta.

Existe uma tradição ainda influente em sociologia e humanidades em geral que é a Tábula Rasa, a ideia de que temos pouco ou nada de influência biológica no que somos em nossos comportamentos. É uma ideia com várias origens, que costuma ser traçada a John Locke. Steven Pinker trata da derrocada dessa visão frente a um longo e paciente estudo da natureza humana em diferentes áreas de investigação no livro homônimo publicado em português pela Companhia das Letras ( http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=10997 ).

Um dos artigos influentes nas ciências sociais sobre como não é mais possível ignorar a influência dos genes nos comportamentos humanos foi publicado em 2008 por Jeremy Freese. Ele chama a atenção para o fato de que genomas têm um efeito ao menos indireto em quase todo fenômeno estudado sociologicamente. Por exemplo, sabemos que diferenças genéticas são causas parciais da altura de uma pessoa. Que a altura, por sua vez, é uma causa parcial do quanto uma pessoa é considerada atraente, e a atratividade é causa parcial de interações sociais positivas, que são parte da causa da auto-estima, e a auto-estima é parte da causa da idade com que uma pessoa tem sua primeira relação sexual. Então, o fenômeno sociológico do começo da vida sexual, argumenta Freese, é geneticamente influenciado, mesmo que apenas por essa via causal referida. (É de se esperar que haja outras vias pelas quais isso ocorre, no entanto.) Bater de frente com a genética quando seu papel é inegável é criar um conflito epistemológico desnecessário, especialmente numa era em que interações entre genes e ambiente são livremente discutidas na própria genética. Um exemplo são alelos do gene da enzima Monoamina Oxidase A que somente desencadeiam comportamento violento quando seus portadores passam por condições de exclusão social e ambiente adverso (Frazzetto et al. 2007).

Dito isso, vamos ver algumas evidências de que o gênero tem algo a ver com biologia: é sabido que a resposta auditiva a sons em “cliques” de indivíduos de sexo biológico masculino difere de indivíduos de sexo biológico feminino. Também se sabe que há uma série de transtornos psiquiátricos que diferem entre homens cissexuais* e mulheres cissexuais, e áreas cerebrais. A questão é: quando se considera uma semelhança de gênero acompanhada de uma diferença de sexo biológico, há ainda algo de biológico em ser mulher ou ser homem? Ou seja, há semelhanças biológicas de mulheres transexuais com mulheres cissexuais, e de homens transexuais com homens cissexuais, que são diferenças entre os gêneros masculino e feminino?

A resposta é sim. Você pode ver no gráfico publicado por Bao & Swaab (2011) que as pesquisas preliminares mostram ao menos uma região cerebral diferindo entre mulheres e homens, incluindo mulheres e homens que são trans. Esta região é um núcleo do hipotálamo.

image

Pode-se afirmar com alguma segurança que tudo o que é psicológico é simultaneamente neurobiológico. Não seria diferente com a identidade de gênero.

Evidentemente, as diferenças parcialmente influenciadas pela genética que grupos de pessoas apresentam podem ser interpretadas de forma diferente por diferentes culturas. Mas o fato de praticamente não se observar (até onde sei) cultura com um número exorbitante de gêneros,  sendo geralmente dois (mulheres e homens), três ou mais, mas nunca muitas dezenas ou milhares (não sem perder a noção de senso comum do que é gênero, que é aproximadamente uma categoria de identidade compartilhada com certa relação com a vida sexual) sugere certas restrições da natureza humana sobre a inventividade cultural no campo dos gêneros. É notório que, quando se tiram certas amarras sociais e coações, como no caso do reconhecimento das pessoas trans como pertencendo aos gêneros que a maioria delas se vê como pertencendo, ainda observamos diferenças biológicas.

Sobre Judith Butler, sua ideia parece ser principalmente questionar a binariedade de gênero na cultura ocidental, com foco nas consequências morais. Suas hipóteses decorrem fortemente da psicanálise, cujo status como investigação da natureza humana é seriamente questionado e majoritariamente desconsiderado por grandes áreas como as ciências cognitivas. Sua análise também é baseada em Michel Foucault e J. L. Austin, porém sua interpretação é questionada. Sua obra filosófica é duramente criticada por outros filósofos, especialmente Martha Nussbaum (vide referências abaixo). Entre filósofos analíticos como Brian Leiter, ela chega a ser considerada uma “hack philosopher” (filósofa fajuta), e já recebeu o prêmio de “pior escrita” por seu estilo excessiva e desnecessariamente obscuro. Então, enquanto não desejo realizar com essas informações um ataque pessoal à Judith Butler como se fosse uma resposta a suas ideias, é digno de atenção que seja possível que sua obra tenha um nicho bastante limitado de maior interesse nas questões morais em torno de gênero sem considerar adequadamente as evidências científicas disponíveis ou uma argumentação clara e cuidadosa que costuma ser mais sensível ao rigor das ciências empíricas.

É importante lembrar que não faltaram no passado também profissionais das ciências que alegassem que nada há de biológico no gênero. Um exemplo era o psiquiatra John Money, que tentou mostrar que o menino David Reimer poderia ter seu gênero determinado como feminino se fosse criado como menina, como solução para a perda do pênis de Reimer quando bebê num procedimento de circuncisão que deu errado. É verdade que ter um pênis não é condição necessária nem suficiente para fazer de alguém um homem. O gênero de uma pessoa está entre suas orelhas, não entre suas pernas. E entre as orelhas não há apenas cultura: há muita biologia.

* Pessoas cissexuais (ou cis) são aquelas que se identificam intimamente com o gênero com o qual foram rotuladas ao nascer, diferentemente de pessoas transexuais (ou trans), que não se identificam com o gênero rotulado no nascimento, podendo ou não adotar o rótulo do outro gênero (a maioria faz isso) ou rótulos diferentes de “homem” ou “mulher”.


Abraço,
Eli Vieira.

Referências

Freese, Jeremy. “Genetics and the Social Science Explanation of Individual Outcomes1.” American Journal of Sociology 114.S1 (2008): S1-S35.

Frazzetto, Giovanni, et al. “Early trauma and increased risk for physical aggression during adulthood: the moderating role of MAOA genotype.” PloS one 2.5 (2007): e486.
Ruigrok, Amber NV, et al. “A meta-analysis of sex differences in human brain structure.” Neuroscience & Biobehavioral Reviews 39 (2014): 34-50.
Bao, Ai-Min, and Dick F. Swaab. “Sexual differentiation of the human brain: relation to gender identity, sexual orientation and neuropsychiatric disorders.” Frontiers in neuroendocrinology 32.2 (2011): 214-226.
Nussbaum, Martha. “The professor of parody.” The New Republic 22.2 (1999): 37-45. Disponível em genetici.st/butler
a diminuição dos pelos
Anonymous

Perdão?

Relate um exemplo de acomodação genética e acomodação fenotípica.
Anonymous

Você entende que o que você escreveu nem ao menos é uma pergunta, é mais uma intimação, entende? :) Escrevi uma resposta sobre este tema que você pode ler aqui. Caso persistam dúvidas, por favor, volte a ‘perguntar’.

Grande abraço,

Rodrigo

Há alguma evidência observável, testada, comprovada da mudança de espécies? Pergunto mudança, não evolução.
Anonymous

Desculpe, mas o problema é que sua pergunta parece já partir de uma distinção estranha entre ‘mudança de espécies’, de um lado, e ‘evolução’, de outro, o que me sugere que você usando como base conceitos que destoam bastante de nossa compreensão científica moderna e que portanto sejam um tanto confusos e enganosos. Por exemplo, não sei se você está falando do processo de especiação ou refere-se a algo mais amplo e mais estendido no tempo, como a transição entre biotas, fartamente documentada através do registro estratigráfico ou mesmo de algo mais específico como as séries de fósseis de formas de transição morfológicas que interligam grandes grupos modernos de organismos, por ancestralidade comum, que também são mais distantes entre si, mas que também são corroborados adicionalmente por estudos filogenéticos moleculares e de biologia evolutiva do desenvolvimento, inclusive experimentais, além de estudos genômicos, transcriptômicos e proteômicos comparativos. Existem evidências científicas ‘observáveis’ e ‘testadas’ para todas estes fenômenos (e os padrões de mudança mais gerais das biotas) que fazem com que a evolução, em sentido amplo (ou seja, o de ancestralidade comum por descendência com modificação), sejam consensualmente aceitos pela comunidade científica moderna. A questão é que como não sei se é sobre algum destes temas que você está em dúvida, não faz muito sentido listar artigos, argumentos e evidências, caso você refira-se a algo diferente disso.

Além disso, como você faz esta estranha distinção inicial (‘mudança de espécie’ vs ‘evolução’), também não estou muito certo do que você entende por ‘evidência observável e testada’, pois o que você pode ter em mente talvez nem faça muito sentido em relação as ciências modernas. Por isso, antes de poder respondê-lo, seria preciso que você tentasse definir melhor estes termos - ‘mudança de espécies’ e ‘evolução’ - , ou seja, como você os entende, além de explicar por que você acha que eles são coisas tão diferentes ou, pelo menos, incompatíveis, já que é isso que tive a impressão pela forma como você colocou a questão. Terei prazer de responder sobre as evidências científicas disponíveis assim que souber o que exatamente você está perguntando e poderei corrigi-lo ou explicar eventuais problemas conceituais inerentes a sua dúvida.


Grande abraço,

Rodrigo

Olá, sou leigo e gostaria de saber se a teoria do gene egoísta é bem aceita no meio acadêmico.
Anonymous

Esta é uma questão bem interessante, mas que não tem uma resposta muito direta, simplesmente porque o ‘gene egoísta’ não é uma teoria científica propriamente dita. Esta expressão é simplesmente uma metáfora (e Dawkins jamais alegou algo diferente disso) criada para esclarecer certas ideias muito importantes da biologia evolutiva moderna que começaram a ser desenvolvidas, principalmente, a partir dos anos de 1960 (como a ‘seleção de parentesco’ e a ‘aptidão inclusiva’); ideias estas até hoje muito usadas em estudos sobre a evolução da cooperação e do altruísmo entre os organismos [Veja nosso post “As cinco regras básicas para a evolução da cooperação”]. Estas ideias (desenvolvidas por gente como John Maynard Smith, George C. Williams e William Hamilton) e a própria metáfora de gene egoísta inserem-se em um contexto bem mais amplo da biologia evolutiva que teve seu início com a teoria sintética da evolução, cristalizada nos anos de 1940, e que tem sua ênfase na genética de populações, que rastreia e modela a evolução dos seres vivos como a variação nas frequências dos alelos (variantes gênicas) nas populações ao longo das gerações. Nesta abordagem os genes e suas variantes são uados como instrumentos contáveis para o estudo da evolução dos organismos.


Para explicar um pouco melhor o que quer dizer a metáfora de Dawkins é preciso compreender alguns conceitos básicos de biologia evolutiva. Vamos lá. Embora muitos pensem a evolução por seleção natural em termos da sobrevivência dos indivíduos (a famigerada e enganosa frase “sobrevivência do mais apto” é um grande exemplo), o componente realmente essencial neste processo é o seu sucesso reprodutivo diferencial (entre indivíduos), que é chamado de ‘aptidão' ou 'aptidão darwiana’. Porém, os biólogos evolutivos (especialmente William Hamilton) perceberam que a aptidão dos indivíduos pode ser tanto direta como indireta, com as duas sendo fundidas no conceito de ‘aptidão inclusiva’, proposto por Hamilton. Isso quer dizer que os indivíduos podem eles mesmos reproduzirem-se, deixando mais descendentes, como podem ajudar e assim contribuir para que outros indivíduos aparentados (ou que, pelo menos, partilhem alelos semelhantes aos que estão em jogo) deixem mais descendentes que outros menos aparentados e que não possuam os mesmos alelos. Esta percepção ajudou a tornar mais claros e portanto a explicar fenômenos que podem parecer um tanto estranhos caso levássemos em conta apenas o sucesso reprodutivo direto dos indivíduos, como a esterilidade de certas castas de insetos sociais (com as abelhas operárias) e mesmo a prevalência de certos comportamentos altruístas em muitas outras espécies, inclusive a nossa.

Então, o que Dawkins fez foi criar uma metáfora (‘o gene egoísta’) para tal abordagem. Concentrando-nos nos genes (ou mais precisamente em suas variantes, os alelos) e abstraindo os indivíduos e as interações sociais e ecológicas entre eles, mesmo comportamentos altruístas, ao nível dos organismos individuais, poderiam simplesmente ser encarados como contribuindo para a replicação diferencial de ‘alelos egoísta’, mesmo que, ‘por ventura’, alguns deles estivessem em organismos individuais diferentes. Assim, mesmo que certos comportamentos resultem no sacrifício dos indivíduos que os perpetram – e, por conseguinte, das cópias dos genes (alelos) que eles mesmos carregam e que são responsáveis por aquele comportamento de auto-sacrifício - , caso estes comportamentos levem a sobrevivência de outros indivíduos com mais cópias daqueles mesmos alelos, o processo poderia facilmente ser mantido e amplificado pela seleção natural. Desta forma, a existência de ‘genes egoístas’ explicaria a existência de indivíduos altruístas (portanto a metáfora e a abordagem não nega a existência de altruísmo, como alguns às vezes a acusam), mas é bom enfatizar que o que a metáfora faz é simplesmente ‘dar uma cara’ ao conceito de aptidão inclusiva e ao modelo de seleção de parentesco, além de explicitar não uma teoria científica diferente, mas uma ‘abordagem meta-teórica’ alternativa (ou seja, um jeito diferente de encarar a evolução adaptativa) que convencionou-se chamar de ‘visão centrada nos genes’. Mas note que a expressão ‘gene egoísta’ só faz sentido mesmo como metáfora pois genes não pensam, não sentem e nem ao menos sobrevivem, eles apenas contribuem para que eles sejam diferencialmente replicados ou para que outras cópias funcionalmente semelhantes em outros indivíduos o sejam também. Este é um ponto importante e que frequentemente é negligenciado por muita gente que usa a metáfora. A questão é que, para Dawkins, os genes (‘replicadores’) não se identificam minuciosamente com as moléculas de DNA em si (e nem necessariamente com as suas sequências), mas apenas com a ‘informação’ (o que depende do contexto biológico) associada a elas e que contribui para algum tipo de modificação no fenótipo organismo (o ‘veículo’) que porta estas sequências, aumentando sua chance de contribuir causalmente para a replicação de mais sequências semelhantes. As moléculas e as sequências em si só assumem este papel no contexto do genoma de um organismo específico que por sinal já é produto de um longo processo evolutivo que incluiu a evolução de mecanismos de detecção e reparo de erros de DNA e portanto de manutenção da alta fidedignidade do processo de cópia. Para empregar a metáfora sem nos perdermos nela é preciso que isso fique bem claro e que jamais nos esqueçamos que a expressão ‘gene egoísta' é só uma metáfora e que a 'visão centrada nos genes' é só uma das formas de encarar a evolução adaptativa.


Concluindo. Apesar da metáfora do ‘gene egoísta’ poder ser útil em alguns contextos, continuando a ser ainda muito difundida entre os divulgadores das ciências (mesmo entre biólogos evolutivos que fazem este papel), ela é bastante limitada e pode levar a vários equívocos, além de parecer perpetuar muita confusão sobre outras questões da biologia teórica, especialmente, as referentes aos debates sobre os níveis, alvos e unidades da seleção natural [veja aqui, aqui e aqui]. Contudo, uma vez deixado tudo isso bem claro, devo enfatizar que os modelos e abordagens que inspiraram esta metáfora (em que a evolução é modelada ao nível dos alelos e em termos de seleção de parentesco e aptidão inclusiva) são ainda muito usados pelos biólogos evolutivos (pelo menos em um nível instrumental), especialmente por aqueles que trabalham com comportamento animal e a evolução da cooperação e do altruísmo em outros organismos, ainda que existam outras abordagens que têm ganho cada vez mais espaço. Espero ter conseguido responder a sua pergunta.



Grande abraço,



Rodrigo

O que vocês acham sobre como se devem traduzir "evolutionary", "evolutionism" e em que contextos devem ser usados?
Anonymous

Eu traduzo ‘evolutionary’ como ‘evolutivo’ (ou ‘evolutiva’), seguindo a tradição - como em ‘biologia evolutiva’. Infelizmente (para mim) creio estar ficando para trás, pois, cada vez, mais tenho observado traduções em que ‘evolutionary’ torna-se ‘evolucionário’, quando não ‘evolucionista’ (como em ‘psicologia evolucionista’ e ‘biologia evolucionária’). Estas duas formas me soam muito esquisitas, nestes contextos, o que é um julgamento completamente pessoal, claro. Além disso, ambas formas constam no VOLP. Já ‘evolutionism’ parece ser mais consensualmente traduzido como ‘evolucionismo’, que é a forma que uso.

Grande abraço,



Rodrigo